Mais do que estética: qualidade de vida feminina
Durante muito tempo, sintomas relacionados à saúde íntima feminina foram considerados consequências naturais da menopausa, do envelhecimento ou de outras fases e situações que envolvem alterações hormonais, como o período de amamentação e alguns tratamentos oncológicos.
No entanto, essas alterações podem impactar diretamente a autoestima, a vida sexual, o conforto e o bem-estar da mulher. Felizmente, hoje existem diferentes recursos terapêuticos que podem auxiliar no cuidado dessas queixas, entre eles a laserterapia íntima.
O que causa essas alterações na região íntima?
Grande parte dessas mudanças está relacionada às variações hormonais que ocorrem ao longo da vida da mulher.
Com a redução dos níveis de estrogênio, os tecidos da região íntima podem sofrer alterações estruturais e funcionais, tornando-se mais finos, menos lubrificados e menos elásticos.
Como consequência, podem surgir sintomas como ressecamento vaginal, ardência, desconforto íntimo, dor durante a relação sexual, sensação de flacidez vaginal, urgência urinária, pequenas perdas de urina e infecções urinárias recorrentes.
Essas mudanças são mais frequentes durante o climatério e a menopausa, mas também podem ocorrer em situações específicas, como durante a amamentação ou após determinados tratamentos oncológicos.
Na menopausa, esse conjunto de sinais e sintomas recebe o nome de Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGM), uma condição frequente e ainda pouco discutida, apesar do impacto que pode causar na qualidade de vida.
O que é o laser íntimo?
A laserterapia íntima é um procedimento realizado em consultório que utiliza energia luminosa para estimular a produção de colágeno, melhorar a circulação local e promover a regeneração dos tecidos vaginais e vulvares.
Quais são os tipos de laser utilizados na ginecologia?
A penetração do laser é limitada pela dispersão da luz pela melanina da epiderme, o que restringe o alcance às camadas dérmicas profundas. Outra característica determinante do benefício do laser é a emissão de centenas de feixes microscópicos, como um “chuveiro”, paralelos e concentrados, promovendo uma renovação celular intensa.
Os principais tipos de laser para uso ginecológico são: dióxido de carbono, CO2, e erbium YAG, Er, cuja sigla significa Yttrium Aluminum Garnet, Granada de ítrio e alumínio, um cristal usado em lasers de alta potência.
Mecanismo de ação
O laser de CO2 é geralmente fracionado e ablativo, porque vaporiza colunas de tecido epitelial para expor o tecido conjuntivo subjacente aos efeitos térmicos. O erbium, especialmente no modo SMOOTH, é tipicamente fracionado e não ablativo, ao criar pulsos de calor sem danificar a mucosa, que se dissipam lenta e controladamente sem causar destruição do epitélio. Ambos estimulam a formação de colágeno, elastina e vasos sanguíneos.
As principais diferenças entre estes dois tipos de laser em ginecologia relacionam-se com a alta afinidade do laser erbium pela água, aproximadamente 16 vezes maior que o laser de CO2. Essa altíssima absorção pela água traz vantagens importantes para o laser erbium, como precisão e controle na emissão dos feixes de luz, levando a dano térmico residual mínimo e tornando-o ideal para esse tipo de tratamento.
A profundidade de penetração do erbium é limitada. Na prática, a ação térmica do CO2 atinge maior profundidade no tecido vaginal, causando vaporização superficial, enquanto o erbium alcança uma menor profundidade sem efeitos de destruição.
O erbium está associado a desconforto pós-operatório mais leve e tempos de cicatrização mais rápidos comparado ao CO2. Os riscos são mínimos com o laser erbium devido à ausência de dano mucoso. Ambos tratamentos não sangram, habitualmente.
Em quais situações o laser pode ajudar?
A laserterapia íntima pode ser considerada como parte do tratamento de alterações relacionadas à Síndrome Geniturinária da Menopausa, mudanças decorrentes do pós-parto, desconfortos associados à queda hormonal e sintomas urinários leves em casos selecionados.
Além disso, pode representar uma alternativa para algumas pacientes que possuem restrições ao uso de terapias hormonais.
É importante destacar que o laser não substitui outros tratamentos quando eles são necessários. Em muitos casos, ele integra uma abordagem terapêutica mais ampla e individualizada.
O que a ciência diz sobre o tratamento?
Além dos mecanismos de ação já descritos, diversos estudos vêm avaliando a eficácia e a segurança dessas tecnologias no tratamento de alterações relacionadas à saúde íntima feminina.
Eficácia clínica
Estudos demonstram que ambos os lasers são eficazes e seguros para o tratamento da síndrome geniturinária da menopausa, SGM, melhorando sintomas de atrofia vulvovaginal, dor na relação sexual, ressecamento e função sexual.
Um ensaio clínico randomizado recente com quatro tipos de energia mostrou que tanto o erbium não ablativo quanto o CO2 microablativo resultaram em melhorias significativas em ressecamento, p < 0,001, e dor na relação sexual, p < 0,001, com aumentos na espessura tecidual e quantidade de colágeno, sem diferenças significativas entre os grupos.
Ambas as tecnologias são consideradas alternativas seguras, minimamente invasivas, geralmente rápidas e confortáveis para a paciente.
Como funciona o tratamento?
O procedimento é realizado em consultório e o número de sessões varia de acordo com cada caso, considerando os sintomas apresentados, os objetivos do tratamento e a avaliação médica.
Os resultados costumam ocorrer de forma gradual, acompanhando o processo de remodelação e renovação dos tecidos ao longo das semanas seguintes às sessões.
A importância da avaliação médica
Cada mulher possui uma história clínica, uma fase hormonal e necessidades específicas. Por isso, antes de iniciar qualquer tratamento, é fundamental realizar uma avaliação ginecológica completa.
Essa avaliação permite identificar a origem dos sintomas, verificar se existe indicação para a laserterapia e definir a melhor estratégia terapêutica para cada caso.
Mais do que um procedimento estético, o laser íntimo é uma ferramenta que pode contribuir para a saúde íntima, o conforto e a qualidade de vida feminina quando utilizado com indicação adequada e acompanhamento médico.